Retórica Clássica 101: Uma Breve História

Tradução por Loki Vult
Texto original em inglês por Brett & Kate McKay – Art of Manliness

Aristóteles

Essa é a segunda postagem da série sobre retórica clássica. Nela, iremos olhar para a história da retórica, estabelecendo os alicerces para o nosso estudo. Esse artigo não tem a menor pretensão de mostrar a história da retórica de maneira ampla, mas deverá ser o suficiente para lhe dar a noção necessária para entender o contexto dos princípios que iremos discutir.

Humanos estudaram e glorificaram a retórica desde o começo da palavra escrita. Tanto os mesopotâmios quanto os egípcios antigos valorizavam a capacidade de falar com eloquência e sabedoria. No entanto, não foi até a ascensão da democracia da Grécia que a retórica se tornou uma arte nobre, que era estudada e desenvolvida sistematicamente.

Retórica na Grécia Antiga: Os Sofistas

La Mort de Socrate, 1787, por Jacques-Louis David.

Muitos historiadores declaram que a terra natal da retórica clássica é a Cidade-Estado anciã de Atenas. Porque a democracia ateniense incluía todos homens livres na política, assim, todo homem ateniense deveria estar pronto para se levantar na Assembléia, e falar para persuadir seus conterrâneos a votarem contra ou a favor de qualquer coisa. O sucesso e a influência de um homem na antiga Atenas dependia da sua capacidade retórica. Como consequência, pequenas escolas que se dedicavam a ensinar retórica começaram a surgir. As primeiras tiveram início no século 5 a.C., num grupo de professores itinerantes chamados de Sofistas.

Os sofistas viajariam de Polis a Polis ensinando jovens como falar e debater. A mais famosa das escolas sofistas era liderada por Górgias e Isócrates. Porque a retórica e discursos em público eram essenciais para o sucesso na vida política, estudantes estavam dispostos a pagar aos sofistas largas somas de dinheiro em troca do ensino. Um currículo sofista típico consistia na análise de poesia, definição das partes de um discurso, e instrução nos estilos de argumentação. Eles ensinavam seus estudantes como fazer um argumento fraco parecer mais forte, e um argumento forte parecer fraco.

Eles se orgulhavam de sua habilidade de vencer qualquer debate em qualquer assunto, mesmo que não tivessem qualquer conhecimento sobre o tópico, através do uso de analogias, metáforas floreadas e jogos de palavras inteligentes. Em resumo, os sofistas focavam no estilo e na apresentação, mesmo ao custo da verdade.

A conotação negativa que nós temos da palavra “sofista” hoje, começa na Grécia antiga. Para os gregos antigos, um “sofista” era um homem que manipulava a verdade por ganho financeiro. Um sentido tão pejorativo que levou Sócrates a ser executado pelos atenienses sob a acusação de ser um sofista. Ambos, Platão e Aristóteles, condenavam os Sofistas por se apoiarem apenas na emoção para persuadir uma audiência, e por sua falta de consideração pela verdade. Apesar das críticas de seus contemporâneos, os Sofistas tiveram uma grande influência no desenvolvimento do estudo e do ensino da retórica.

[NT: O autor do artigo cometeu um erro. Sócrates foi acusado de corromper a juventude, com impiedade – ‘heresia’, por assim dizer – e pensamentos antidemocráticos. Os sofistas não ensinavam apenas por dinheiro, mas também tinham fins políticos. Além da falta de compromisso com a verdade, os sofistas tinham um compromisso com a democracia.]

Retórica na Grécia Antiga: Aristóteles e A Arte da Retórica

Aristóteles e seu pupilo, Alexandre, o Grande

Ainda que o grande filósofo Aristóteles criticasse o mal uso da retórica pelos Sofistas, ele a via como uma ferramenta útil em ajudar o público a ver e compreender a verdade. Em seu tratado, A Arte da Retórica, Aristóteles estabeleceu um sistema de entendimento e ensino da retórica.

Nesse tratado, Aristóteles define a retórica como “a faculdade de observar em qualquer caso, os meios meios disponíveis de persuasão.” Favorecendo a persuasão através da razão sozinha, ele também reconhecia que, algumas vezes, uma audiência não seria sofisticada o suficiente para seguir argumentos baseados apenas em princípios lógicos e científicos. Nesses casos, linguagem e técnicas persuasivas eram necessárias para a demonstração da verdade. Além disso, a retórica muniu o homem com as armas necessárias para refutar demagogos e aqueles que usavam a retórica com propósitos malignos. De acordo com Aristóteles, as vezes, você tem que combater fogo com fogo.

Após estabelecer a necessidade para o conhecimento retórico, Aristóteles apresenta seu sistema para uma aplicação efetiva da retórica:

  • Os Três Meios de Persuasão  (logos, pathos e ethos)
  • Os Três Gêneros do Discurso (deliberativo, judiciário e epidítico)
  • Tópicos retóricos
  • Partes do discurso
  • Uso efetivo do estilo

A Arte da Retórica teve uma tremenda influência no desenvolvimento do estudo da retórica pelos próximos 2.000 aos. Os retóricos romanos, Cicero e Quintiliano, frequentemente se referiam ao trabalho de Aristóteles, e as universidades exigiam que os seus alunos estudassem A Arte da Retórica durante os séculos XVIII e XIX.

[NT: A Arte da Retórica de que o autor fala é mais conhecida como “Retórica”. Ele possivelmente leu numa tradução com o título modificado.]

Retórica na Roma Antiga: Cicero

Marco Túlio Cicero [106 a.C. a 43 a.C.]
A retórica se desenvolvia de maneira lenta na Roma Antiga, mas ela começou a florescer quando o império conquistou a Grécia e começou a ser influenciado pelas tradições gregas de muitas maneiras. Ao passo que os antigos romanos incorporaram muitos dos elementos retóricos dos gregos, eles divergiram da tradição grega em muitas maneiras. Por exemplo, oradores e escritores na Roma Antiga dependiam mais de floreios estilísticos, histórias firmes, metáforas convincentes e menos na razão lógica do que seus homólogos gregos.

O primeiro mestre retórico que Roma produziu foi o grande estadista Cícero. Durante sua carreira, ele escreveu diversos tratados no assunto, incluindo De Oratore, Brutus, De Inventione e Topica. Seus escritos sobre retórica guiaram escolas no assunto até no Renascimento.

A visão de Cícero sobre a retórica tinha ênfase na importância da educação liberal. De acordo com ele, para ser persuasivo, um homem precisa de ter conhecimento sobre história, política, arte, literatura, ética, lei e medicina. Com uma educação liberal, uma pessoa pode se conectar com qualquer público a que se dirija.

Retórica na Roma Antiga: Quintiliano

Marco Fábio Quintiliano [35 a 100]
O segundo romano a deixar sua marca no estudo da retórica foi Quintiliano. Depois de afiar suas habilidades retóricas por anos nas cortes romanas, Quintiliano abriu uma escola pública de retórica. Lá, ele desenvolveu um sistema de estudo que levava um estudante através de diferentes níveis de treino retórico intenso. Em 95 d.C., Quintiliano imortalizou seu sistema de educação retórica numa obra de 12 volumes chamada Institutio Oratoria.

Institutio Oratoria cobre todos os aspectos da arte da retórica. Enquanto Quintiliano focava principalmente nos aspectos técnicos da retórica efetiva, ele também gastava um tempo relevante organizando um currículo do que ele julgava ser o alicerce da educação de todo homem. Na verdade, a educação retórica ideal começaria assim que um bebê nascesse. Por exemplo, ele aconselha aos pais que encontrem aos filhos uma ama bem articulada e versada em filosofia.

Quintiliano dedica muito de seu tratado para esclarecer e explicar os Cinco Cânones da Retórica. Primeiro vistos no De Inventione de Cícero, os Cinco Cânones provêem um guia para a criação de um discurso poderoso. Os Cinco Cânones são:

  • inventio (invenção): O processo de desenvolver e refinar seus argumentos.
  • dispositio (arranjo): O processo de arranjar e organizar seus argumentos para maximizar o impacto.
  • elocutio (estilo): O processo de determinar como você apresenta seus argumentos usando figuras de linguagem ou outras técnicas retóricas.
  • memoria (memória): O processo de aprender e memorizar seu discurso, para que você possa proferi-lo sem precisar recorrer a anotações. O trabalho de memória não só consiste em memorizar as palavras de um discurso específico, mas também citações famosas, referências literárias e outros fatos que poderiam ser usados numa fala improvisada.
  • actio (entrega): O processo de praticar como você irá entregar seu discurso, através de diferentes gestos, pronúncias e tom de voz.

Se você já teve aulas de fala em público, você provavelmente aprendeu alguma versão dos Cinco Cânones. Estaremos revisitando estes com
mais detalhes em postagens futuras.

Retórica nos Tempos Medievais e no Renascimento

Sant’Agostino nello studio, 1480, por Botticelli

Durante a Idade Média, a retórica mudou do discurso político para o discurso religioso. Ao invés de ser uma ferramenta de governo, a retórica passou a ser vista como um método de salvar almas. Padres, como Santo Agostinho, exploraram como eles poderiam usar essa arte pagã, a retórica, para melhor expandir o alcance do evangelho aos não convertidos e melhor pregar aos crentes.

Durante a segunda metade do período medieval, as universidades começaram a se formar na França, na Itália e na Inglaterra, onde os alunos aprendiam gramática, lógica, e (você adivinhou) retórica. Estudantes medievais se debruçavam sobre textos escritos por Aristóteles para aprender teoria retórica, e gastavam horas repetindo exercícios de rotina em grego e latim para melhorar suas habilidades. Apesar da ênfase no ensino da retórica, porém, os pensadores medievais fizeram poucas novas contribuições ao estudo desta.

[NT: Eu deveria ter dito algo sobre isso na introdução, mas nunca é tarde demais. “Ensino liberal” se refere a “artes liberais”, uma metodologia. O interesse desse método é a formação para uma vida intelectual, acadêmica ou artística. Compõem as artes liberais o Trivium e o Quadrivium. O Trivium o autor já citou, é composto por gramática, lógica e retórica. O Quadrivium trata do ensino de aritmética, música, geometria e astronomia.]

Como as artes e ciências, o estudo da retórica foi renovado durante o período do Renascimento. Os textos de Cicero e Quintiliano foram redescobertos e utilizados em currículos de estudo; por exemplo, o De Inventione de Cicero rapidamente se tornou um livro padrão para o estudo de retórica nas universidades européias. Os escolares da Renascimento começaram a produzir novos tratados e livros de retórica, e muitos deles dando preferência à aplicação da retórica no próprio idioma, em oposição ao latim e ao grego antigo.

Retórica na Modernidade

“Dê-me liberdade ou dê-me morte” – Patrick Henry

O rejuvenescimento da retórica continuou através do Iluminismo. A medida que ideais democráticos se espalharam pela Europa e pelas colônias americanas, a retórica fez seu caminho de volta do discurso religioso para o político. Filósofos políticos e revolucionários usavam-na como uma arma em suas campanhas por liberdade e independência.

Nos séculos XVIII e XIX, as universidades na Europa e na América começaram a dedicar departamentos inteiros ao estudo da retórica. Um dos livros mais influentes sobre o assunto lançado no período foi o “Leçons de rhétorique et de belles-lettres” de Hugh Blair. Publicado em 1783, o livro de Blair permaneceu como leitura padrão em universidades do mundo por mais de um século.

A ploriferação dos meios de comunicação de massa no século XX causaram mais uma mudança no rumo do estudo da retórica. Fotografias, filmes e televisão se tornaram ferramentas poderosas de persuasão. Em resposta, retóricos expandiram seus repertórios para incluir não apenas a maestria da língua falada e escrita, mas também algum domínio de artes visuais.

É o suficiente por essa edição do Retórica Clássica 101. Continue sua leitura com ‘Os Três Meios de Persuasão’!

 

Classical Rhetoric 101 Series
Uma Introdução
Uma Breve História
Os Três Meios de Persuasão
Os Cinco Cânones da Retórica – Invenção
Os Cinco Cânones da Retórica – Arranjo
Os Cinco Cânones da Retórica – Estilo
Os Cinco Cânones da Retórica – Memória
Os Cinco Cânones da Retórica – Entrega
Falácias Lógicas